MAGIA
OU MÁGICA? FEITIÇO OU ILUMINAÇÃO?
Por Marcio Isael Larsen
No excelente desenho “Fantasia” de Walt Disney, feito
originalmente em 1946 e que ganhou uma versão no ano 2000 (intitulada Fantasia
2000).
Ao ver esse desenho encantador constituído por segmentos animados baseados em peças da musica clássica que lhes dão "forma e conteúdo", destacamos “O Aprendiz de Feiticeiro”, protagonizada pelo seu mais famoso personagem: Mickey. Mas por que esse segmento em especial se destaca? Pelo seu teor iniciático transmitido com a graça e a maestria comum aos verdadeiros gênios.
A história se desenrola sob a musica de Paul Dukas(criada a partir de um conto de Goethe) na qual o carismático ratinho vive um desengonçado aprendiz de feiticeiro sob a orientação de um severo Mestre-Mago, que tem a honra de abrir o "conto" de forma magistral: ele aparece criando, a partir de uma substancia que ele manipula de um caldeirão, uma forma-pensamento inicialmente assombrosa similar a um morcego, mas que logo é transformada em uma bela borboleta. E isso já nos diz muito: revela que o Mestre tem o Poder e a Sabedoria para manipular e transformar a "matéria" psíquica ( e até a matéria física em alguns casos)inferior, crua e impura em uma substancia pura e diáfana(decantação) capaz de servir as ideias e aos pensamentos superiores. Um
aprendiz, mesmo que dispusesse de conhecimento e habilidade suficientes para manejar a matéria astral talvez fracassasse em seu intento face às emoções e paixões ainda pulsantes. Os resultados de experimentos dessa natureza levados a cabo por impúberes psíquicos são sempre desastrosos e danosos.
Notamos que o Mago veste uma indumentária Azul,
enquanto que o seu aprendiz veste uma na cor vermelha, detalhes muito significativos: o Azul simboliza a Vontade, enquanto o vermelho encarna o desejo, princípios nem sempre distinguíveis no modo, não obstante, muito diferentes na essência. E Walt Disney parecia saber disso(Goethe por certo que sabia)! O fato do Mestre trajar uma veste azul demonstra que a
Vontade do Espírito é o poder que rege os seus atos; e vontade significa ação
direta da essência, sem passar pelas inclinações, tendências e carências do ego,nem tampouco pelos seus temores. E o desejo? Se tomado por si mesmo é um poder essencial, uma força vital que nos tira da imobilidade e que serve sim à evolução, desde que seja mormente contrabalançado pela razão, porque caso não haja um sensor analítico-racional para dar limite aos desejos, nos tornamos escravos dos seus objetos.
O chapéu do Mestre-Mago é ornado com estrelas,
simbolizando que ele está conectado com a dimensão Cósmica da vida. Mas essa conexão só é possível porque ele mesmo é como uma estrela: gera luz própria, ou melhor colocando, reconheceu a própria luz e age a partir dela. O chapéu pontudo e iluminado é como uma "extensão" do seu centro coronário, que nele opera como uma antena capaz de sintonizar as mais altas frequências. Já o chapéu do nosso simpaticíssimo protagonista não possui um chapéu, porém...
O Mestre-Mago, após um dia de serviço consagrado a "transubstanciação da matéria" se recolhe para descansar, deixando o seu chapéu sobre
uma mesa. Em seguida ele “sobe a escada" para momentaneamente se retirar. Mickey
até então se contentava em lavar e varrer o chão em um dia a dia aparentemente
entediante, afinal, enquanto ele se deslumbrava com os fetos do Mestre, sua “magia” era fazer o que todo mundo faz, ou seja, o que nenhuma pessoa "normal" deseja fazer: as tarefas cotidianas que se repetem à exaustão, os serviços mais básicos que gostaríamos de delegar a outro sem pestanejar.
Mas eis que o nosso querido ratinho vê à sua frente a
maior das chances de poder se “igualar” ao seu mentor: Ele veste o chapéu do
Mestre! Meio torto e desajeitado sobre a sua cabeça, o chapéu parece que não lhe cair bem por ser "desproporcional ao seu tamanho", simbolizando que não
podemos “vestir” o que não nos cabe e que não nos pertence por direito adquirido.

De posse do novo e poderoso instrumento de poder, Mickey resolve arriscar um “encantamento” para a sua velha conhecida e inseparável colega de labuta: a vassoura. Do "alto" da sua condição de aprendiz, ele se gesticula por inteiro(uma cena impagável e hilária tocada pela trilha impecável), fazendo das suas mãos o equivalente a vara de condão (que é uma extensão
do Poder Criador). Após certo esforço ele consegue lançar um feitiço e "acoplar" o seu corpo de desejos à vassoura, dando-lhe "vida" e criando, inclusive, membros para que ela desempenhe eficiência uma das tarefas que mais o exauria: encher baldes com a água de uma fonte e despeja-la em um "poço" localizado do outro lado do castelo.
Desnecessário dizer o quanto nosso aprendiz fica emocionado e radiante, se sentindo “poderoso” e orgulhoso, um verdadeiro mago no seu entendimento. E o melhor: o trabalho "pesado" ficou a cargo do “elemental” plasmado na vassoura. E a cena, uma das mais hilárias e empolgantes, é perfeitamente narrada pela musica irretocável contendo em notas e acordes a sabedoria de Goethe!

A energia do desejo do aprendiz foi amplificada pelo chapéu já
magnetizado pela vontade do Mago, no entanto, enquanto
Mickey entra no modo “mago” e delega suas tarefas ao Elemental ele se acomoda e acaba adormecendo. Então, como em um "passe de mágica" ele sai do seu corpo e flutua em corpo astral (e para o plano astral) até o alto de um penhasco no qual ele se posiciona como um maestro para viver seu sonho mais delirante: comandar, onipotente, as forças e os elementos da natureza desde as águas do mar que arrebentam poderosas contra o seu pináculo de rocha até as nuvens ribombando trovões passando por estrelas e cometas riscando o céu num frenesi de sons, luzes e cores em um espetáculo quase pirotécnico. E como não podia ser diferente, somos envolvidos pela graça, força e beleza da cena desenhada pela música grandiloquente tal e qual o seu "maestro"!
Mas não há delírio que dure tanto para que deixe de ser breve: na sequencia do seu sono tomado por trovões e ondas gigantescas, o “mago” é abruptamente acordado em meio a um evento inesperado: enquanto ele exercia seus poderes em sua miragem astral, a sua serva vassoura continuou, descontrolada, a encher o poço até transbordar e inundar o castelo. Esse alagamento fez com que a sua cadeira boiasse e ele despertasse daquele delírio, que numa certa altura, parecia igualmente descontrolado.
A água tanto pode conduzir
como desviar, nela podemos flutuar ou afundar, nadar ou nos afogar...

Sabemos que o elemento água está relacionado com a
emoção e com o desejo, pois ambos nos arrastam feito uma correnteza uma vez que
não estejam sob ação diretiva da razão pura e da vontade. E o dileto aprendiz está numa situação sobremaneira delicada por desconhecer uma regra básica da magia organizada: o encanto feito com conhecimento deve ser desfeito com sabedoria. Mas ele não fez o encanto com conhecimento suficiente e tampouco tinha sabedoria para desfaze-lo. E assim são os desejos: por mais difícil que seja satisfaze-los, mais difícil ainda é desfaze-los. Em suma: o feitiço virou contra o feiticeiro, simples assim e como reza a expressão popular.
Num rompante desesperado, ele pega um machado e parte a
vassouras em vários pedaços no intento de destruí-la, um momento do desenho anacrônico talvez porque nunca imaginamos um Mickey violento; e porque é uma passagem tensa que dá um "banho de água fria" na graciosidade comum a animação. Seja assim ou não(porque pouco importa, afinal) o fato é que o aprendiz após despedaçar sua assistente descontrolada pensou ter se livrado do pesadelo, porém, não se conserta um erro cometendo um erro maior: ele "matou" a vassoura, mas o elemental não. Com efeito a misteriosa sentença “matar é multiplicar” se fez entender claramente ao ele ver que de cada pedacinho da
vassoura tantas outras nasciam até formar um exército de munido com baldes e sedentos por mais água(desejo).
Mickey estava desesperado, apavorado e impotente, praticamente "afogado" em seu desespero sabedor que nenhuma mágica, truque ou poder psíquico fariam efeito. E ficou patente a sua completa falta de maturidade, temperança e autocontrole, requisitos indispensáveis para um Mago. E para agravar o seu pânico o Mestre poderia surgir a qualquer momento e puni-lo severamente, quem sabe, transforma-lo num sapo, rsrs.
Mickey se meteu em apuros por tentar ser o que não podia
na hora errada, fora de tempo. Potencialmente ele tinha os mesmos poderes e
faculdades do seu Mestre, destarte ainda tivesse muito o que aprender para ser. No meio daquele redemoinho de turbilhões emocionais ele busca socorro num livro no qual
tenta achar "o encanto para o desencanto", contudo, mesmo que ele o achasse de
nada adiantaria, pois naquele estado aviltado de consciência qualquer coisa que
ele fizesse só poderia agravar ainda mais a situação, sem contar que ter conhecimento difere de saber! Ele
poderia teoricamente compreender os procedimentos para desfazer o elemental, mas faltava-lhe a vivência prática que confere o tom adequado para cada situação e cenário. Em síntese, como ele ainda não saboreou a informação e os ensinamentos do Mestre, o conhecimento, se obtido, seria inócuo mesmo se ele estivesse "com a cabeça no lugar"(menos irascível). Quantos
conhecimentos adquirimos sem que nossos atos necessariamente correspondam aos mesmos?
Como rezam os orientais, “falar arroz não cozinha o arroz”.

E quando
tudo parecia perdido eis que surge o Mestre-Mago, esse sim onipotente no seu domínio, tanto que ao presenciar aquele espetáculo tragicômico abre caminho como moisés o fez, por entre o "mar vermelho das emoções e dos desejos" para restituir a ordem natural das coisas e "salvar" seu tolo aprendiz do próprio “feitiço”. Um detalhe assaz importante na representação do Mestre é a aura amarelo-dourada que o envolve, uma alusão clara ao princípio da Sabedoria.
Em
“desencanto” e com cara de quem sabe que fez o que não deveria, Mickey pega os
baldes sob o olhar severo do Mestre Mago, que com a vassoura em mãos (e devolvida a sua condição original) poem o seu discípulo no seu devido lugar para que reassuma os seus afazeres, afazeres que provavelmente esse mesmo Mestre quando discípulo sob a tutela do seu Mestre também os fez.

O que mais podemos aprender e apreender com esse fantástico desenho? A maior lição está na humildade em saber executar com honra e boa vontade as tarefas mais básicas e essenciais, aquelas sem as quais as maiores não se alicerçam no mundo.
O Mestre-Mago do desenho é fiel aos verdadeiros Mestres Adeptos da Boa Lei: vive recluso e não possui um séquito de adoradores, apenas um aprendiz
que certamente tem as suas virtudes, pois do contrário não estaria ali. Mas o
aprendiz parece ignorar esse privilégio ao se recusar a cumprir as suas obrigações rotineiras, pois ele deseja receber lições de magia
(ou seria mágica, ilusionismo???), quer ser iniciado nas "artes secretas" talvez até com o intento de fazer o bem, alhures fazer o bem sem saber “bem”
como faze-lo e o que fazer, pode resultar em um grande
“mal”. E de certa forma, foi isso que aconteceu.
Um fato curioso é que nos mosteiros ,sejam Budistas, Cristãos ou Hinduístas os monges em geral estão sempre cumprindo tarefas comuns,
tais como varrer, lavar, plantar, colher e cozinhar. Não os encontramos levitando e nem desmaterializando objetos, ou seja, nenhuma ação extraordinária que justifique diferencia-los de qualquer um de nós, salvo a obediências às regras e as disciplinas monásticas(improváveis de serem assimiladas pela maioria de nós). O que presenciamos nesses ambientes são pessoas ordinárias realizando o dia a dia de forma extraordinária, entrementes seja até possível que alguns desses aprendizes já tenham algumas faculdades "sutis" despertas, direcionadas, mormente, para fins diversos daqueles que quase custaram a vida do nosso ratinho.
Como a humanidade ainda é deveras infantil e
deslumbrada, leviana e suscetível a “encantamentos”, os
Verdadeiros Mestres sabem que despertar sentidos "extra-supra sensoriais" é perigoso. No livro "A Voz do Silêncio", de H.P.Blavatsky consta, logo no inicio das regras para o discipulado, o seguinte alerta: "Estas instruções são para os que ignoram os perigos dos Siddhis inferiores". Os Siddhis inferiores são justamente as faculdades psíquicas que abrangem várias formas de energias astral e mental grosseiras veiculadas por meio da kundalini , que no individuo pouco desenvolvido espiritual e psicologicamente se manifesta como força puramente sexual. Em contrapartida, os Siddhis Superiores só são despertos quando a Vontade Pura tem a Compaixão como expressão dominante.
A verdade é que em nosso estado vigente, caso fossemos investidos de tais Siddhis seríamos todos magos negros, e por certo já teríamos nos autodestruídos.
Vejamos Jesus: A Ele são atribuídos milagres, o que não nos espanta em face dos seus sentidos físicos serem extensões dos seus sentidos superiores, mas cremos, no entanto, que alguns desses milagres encobrissem ações e gestos mais profundos. Por exemplo: O milagre de caminhar sobre as águas foi uma
maneira de representar a transcendência das emoções e dos desejos, alhures transformação da água em vinho simbolizasse a transmutação das emoções no
vinho da consciência Crística desperta. Por fim, a graça de ter dado "visão aos cegos", pode ser uma referencia a "cegueira espiritual". Ele mesmo disse: "OS HOMENS TEM OLHOS, MAS NÃO ENXERGAM".
Em suma, não devemos "apressar o curso do rio", nem tampouco, cobiçar o que não temos capacidade de sustentar e exercer. O desenho do grande Walt Disney é uma graciosa e deliciosa lição que tem, nas palavras de Jesus a síntese perfeita: "COMO QUERES DAR CONTA DAS GRANDES COISAS SE NÃO CONSEGUES DAR CONTA DAS PEQUENAS?".