quinta-feira, 29 de maio de 2014

Magia ou Mágica? Ilusão ou Iluminação? (atualizado)

MAGIA OU MÁGICA? FEITIÇO OU ILUMINAÇÃO?


Por Marcio Isael Larsen 


No excelente desenho “Fantasia” de Walt Disney, feito originalmente em 1946 e que ganhou uma versão no ano 2000 (intitulada Fantasia 2000).
Ao ver esse desenho encantador constituído por segmentos animados baseados em peças da musica clássica que lhes dão "forma e conteúdo", destacamos “O Aprendiz de Feiticeiro”, protagonizada pelo seu mais famoso personagem: Mickey. Mas por que esse segmento em especial se destaca? Pelo seu teor iniciático transmitido com a graça e a maestria comum aos verdadeiros gênios.

A história se desenrola sob a musica de Paul Dukas(criada a partir de um conto de Goethe) na qual o carismático ratinho vive um desengonçado aprendiz de feiticeiro sob a orientação de um severo Mestre-Mago, que tem a honra de abrir o "conto" de forma magistral:  ele aparece criando, a partir de uma substancia que ele manipula de um caldeirão, uma forma-pensamento inicialmente assombrosa similar a um morcego, mas que logo é transformada em uma bela borboleta. E isso já nos diz muito: revela que o Mestre tem o Poder e a Sabedoria para manipular e transformar a "matéria" psíquica ( e até a matéria física em alguns casos)inferior, crua e impura em uma substancia pura e diáfana(decantação) capaz de servir as ideias e aos pensamentos superiores. Um aprendiz, mesmo que dispusesse de conhecimento e habilidade suficientes para manejar a matéria astral talvez fracassasse em seu intento face às emoções e paixões ainda pulsantes. Os resultados de experimentos dessa natureza levados a cabo por impúberes psíquicos são sempre desastrosos e danosos.  

Notamos que o Mago veste uma indumentária Azul, enquanto que o seu aprendiz veste uma na cor vermelha, detalhes muito significativos: o Azul simboliza a Vontade, enquanto o vermelho encarna o desejo, princípios nem sempre distinguíveis no modo, não obstante, muito diferentes na essência. E Walt Disney parecia saber disso(Goethe por certo que sabia)! O fato do Mestre trajar uma veste azul demonstra que a Vontade do Espírito é o poder que rege os seus atos; e vontade significa ação direta da essência, sem passar pelas inclinações, tendências e carências do ego,nem tampouco pelos seus temores. E o desejo? Se tomado por si mesmo é um poder essencial, uma força vital que nos tira da imobilidade e que serve sim à evolução, desde que seja mormente contrabalançado pela razão, porque caso não haja um sensor analítico-racional para dar limite aos desejos, nos tornamos escravos dos seus objetos. 

O chapéu do Mestre-Mago é ornado com estrelas, simbolizando que ele está conectado com a dimensão Cósmica da vida. Mas essa conexão só é possível porque ele mesmo é como uma estrela: gera luz própria, ou melhor colocando, reconheceu a própria luz e age a partir dela. O chapéu pontudo e iluminado é como uma "extensão" do seu centro coronário, que nele opera como uma antena capaz de sintonizar as mais altas frequências. Já o chapéu do nosso simpaticíssimo protagonista não possui um chapéu, porém...

O Mestre-Mago, após um dia de serviço consagrado a "transubstanciação da matéria" se recolhe para descansar, deixando o seu chapéu sobre uma mesa. Em seguida ele “sobe a escada" para momentaneamente se retirar. Mickey até então se contentava em lavar e varrer o chão em um dia a dia aparentemente entediante, afinal, enquanto ele se deslumbrava com os fetos do  Mestre, sua “magia” era fazer o que todo mundo faz, ou seja, o que nenhuma pessoa "normal" deseja fazer: as tarefas cotidianas que se repetem à exaustão, os serviços mais básicos que gostaríamos de delegar a outro sem pestanejar.




Mas eis que o nosso querido ratinho vê à sua frente a maior das chances de poder se “igualar” ao seu mentor: Ele veste o chapéu do Mestre! Meio torto e desajeitado sobre a sua cabeça, o chapéu parece que não lhe cair bem por ser "desproporcional ao seu tamanho",  simbolizando que não podemos “vestir” o que não nos cabe e que não nos pertence por direito adquirido. 




De posse do novo e poderoso instrumento de poder, Mickey resolve arriscar um “encantamento” para a sua velha conhecida e inseparável colega de labuta: a vassoura. Do "alto" da sua condição de aprendiz, ele se gesticula por inteiro(uma cena impagável e hilária tocada pela trilha impecável), fazendo das suas mãos o equivalente a vara de condão (que é uma extensão do Poder Criador). Após certo esforço ele consegue lançar um feitiço e  "acoplar" o seu corpo de desejos à vassoura, dando-lhe "vida" e criando, inclusive, membros para que ela desempenhe eficiência uma das tarefas que mais o exauria: encher baldes com a água de uma fonte e despeja-la em um "poço" localizado do outro lado do castelo. Desnecessário dizer o quanto nosso aprendiz fica emocionado e radiante, se sentindo “poderoso” e orgulhoso, um verdadeiro mago no seu entendimento. E o melhor: o trabalho "pesado" ficou a cargo do “elemental” plasmado na vassoura. E a cena, uma das mais hilárias e empolgantes, é perfeitamente narrada pela musica irretocável contendo em notas e acordes a sabedoria de Goethe!


A energia do desejo do aprendiz foi amplificada pelo chapéu já magnetizado pela vontade do Mago, no entanto, enquanto Mickey entra no modo “mago” e delega suas tarefas ao Elemental ele se acomoda e acaba adormecendo. Então, como em um "passe de mágica" ele sai do seu corpo e flutua em corpo astral (e para o plano astral) até o alto de um penhasco no qual ele se posiciona como um maestro para viver seu sonho mais delirante: comandar, onipotente, as forças e os elementos da natureza desde as águas do mar que arrebentam poderosas contra o seu pináculo de rocha até as nuvens ribombando trovões passando por estrelas e cometas riscando o céu num frenesi de sons, luzes e cores em um espetáculo quase pirotécnico. E como não podia ser diferente, somos envolvidos pela graça, força e beleza da cena desenhada pela música grandiloquente tal e qual o seu "maestro"! 

Mas não há delírio que dure tanto para que deixe de ser breve: na sequencia do seu sono tomado por trovões e ondas gigantescas, o “mago” é abruptamente acordado em meio a um evento inesperado: enquanto ele exercia seus poderes em sua miragem astral, a sua serva vassoura continuou, descontrolada, a encher o poço até transbordar e  inundar o castelo. Esse alagamento fez com que a sua cadeira boiasse e ele despertasse daquele delírio, que numa certa altura, parecia igualmente descontrolado.
A água tanto pode conduzir como desviar, nela podemos flutuar ou afundar, nadar ou nos afogar...


Sabemos que o elemento água está relacionado com a emoção e com o desejo, pois ambos nos arrastam feito uma correnteza uma vez que não estejam sob ação diretiva da razão pura e da vontade. E o dileto aprendiz está numa situação sobremaneira delicada por desconhecer uma regra básica da magia organizada: o encanto feito com conhecimento deve ser desfeito com sabedoria. Mas ele não fez o encanto com conhecimento suficiente e tampouco tinha sabedoria para desfaze-lo. E assim são os desejos: por mais difícil que seja satisfaze-los, mais difícil ainda é desfaze-los. Em suma: o feitiço virou contra o feiticeiro, simples assim e como reza a expressão popular.

Num rompante desesperado, ele pega um machado e parte a vassouras em vários pedaços no intento de destruí-la, um momento do desenho anacrônico talvez porque nunca imaginamos um Mickey violento; e porque é uma passagem tensa que dá um "banho de água fria" na graciosidade comum a animação. Seja assim ou não(porque  pouco importa, afinal) o fato é que o aprendiz após despedaçar sua assistente descontrolada pensou ter se livrado do pesadelo, porém, não se conserta um erro cometendo um erro maior:  ele "matou" a vassoura, mas o elemental não. Com efeito a misteriosa sentença “matar é multiplicar” se fez entender claramente ao ele ver que de cada pedacinho da vassoura tantas outras nasciam até formar um  exército de  munido com baldes e sedentos por mais água(desejo).

Mickey estava desesperado, apavorado e impotente, praticamente "afogado" em seu desespero sabedor que nenhuma mágica, truque ou poder psíquico fariam efeito. E ficou patente a sua completa  falta de maturidade, temperança e autocontrole, requisitos indispensáveis para um Mago. E para agravar o seu pânico o Mestre poderia surgir a qualquer momento e puni-lo severamente, quem sabe, transforma-lo num sapo, rsrs.

Mickey se meteu em apuros por tentar ser o que não podia na hora errada, fora de tempo. Potencialmente ele tinha os mesmos poderes e faculdades do seu Mestre, destarte ainda tivesse muito o que aprender para ser. No meio daquele redemoinho de turbilhões emocionais ele busca socorro num livro no qual tenta achar "o encanto para o desencanto", contudo, mesmo que ele o achasse de nada adiantaria, pois naquele estado aviltado de consciência qualquer coisa que ele fizesse só poderia agravar ainda mais a situação, sem contar que ter conhecimento difere de saber! Ele poderia teoricamente compreender os procedimentos para desfazer o elemental, mas faltava-lhe a vivência prática que confere o tom adequado para cada situação e cenário. Em síntese, como ele ainda não saboreou a informação e os ensinamentos do Mestre, o conhecimento, se obtido, seria inócuo mesmo se ele estivesse "com a cabeça no lugar"(menos irascível). Quantos conhecimentos adquirimos sem que nossos atos necessariamente correspondam aos mesmos? Como rezam os orientais, “falar arroz não cozinha o arroz”.



quando tudo parecia perdido eis que surge o Mestre-Mago, esse sim onipotente no seu domínio, tanto que ao presenciar aquele espetáculo tragicômico abre caminho como moisés o fez, por entre o "mar vermelho das emoções e dos desejos" para restituir a ordem natural das coisas e "salvar" seu tolo aprendiz do próprio “feitiço”. Um detalhe assaz importante na representação do Mestre é a aura amarelo-dourada que o envolve, uma alusão clara ao princípio da Sabedoria.

Em “desencanto” e com cara de quem sabe que fez o que não deveria, Mickey pega os baldes sob o olhar severo do Mestre Mago, que com a vassoura em mãos (e devolvida a sua condição original) poem o seu discípulo no seu devido lugar para que reassuma os  seus afazeres, afazeres que provavelmente esse mesmo Mestre quando discípulo sob a tutela do seu Mestre também os fez.


O que mais podemos aprender e apreender com esse fantástico desenho? A maior lição está na humildade em saber executar com honra e boa vontade as tarefas mais básicas e essenciais, aquelas sem as quais as maiores não se alicerçam no mundo.  

O Mestre-Mago do desenho é fiel aos verdadeiros Mestres Adeptos da Boa Lei: vive recluso e não possui um séquito de adoradores, apenas um aprendiz que certamente tem as suas virtudes, pois do contrário não estaria ali. Mas o aprendiz parece ignorar esse privilégio ao se recusar a cumprir as suas obrigações rotineiras, pois ele deseja receber lições de magia (ou seria mágica, ilusionismo???), quer ser iniciado nas "artes secretas"  talvez até com o intento de fazer o bem, alhures fazer o bem sem saber “bem” como faze-lo  e o que fazer, pode resultar em um grande “mal”. E de certa forma, foi isso que aconteceu.

Um fato curioso é que nos mosteiros ,sejam Budistas, Cristãos ou Hinduístas  os monges em geral estão sempre cumprindo tarefas comuns, tais como varrer, lavar, plantar, colher e cozinhar. Não os encontramos levitando e nem desmaterializando objetos, ou seja, nenhuma ação extraordinária que justifique diferencia-los de qualquer um de nós, salvo a obediências às regras e as disciplinas monásticas(improváveis de serem assimiladas pela maioria de nós). O que presenciamos nesses ambientes são pessoas ordinárias realizando o dia a dia de forma extraordinária, entrementes seja até possível que alguns desses aprendizes já tenham algumas faculdades "sutis" despertas, direcionadas, mormente, para fins diversos daqueles que quase custaram a vida do nosso ratinho.

Como a humanidade ainda é deveras infantil e deslumbrada, leviana e suscetível a “encantamentos”, os Verdadeiros Mestres sabem que despertar sentidos "extra-supra sensoriais" é perigoso. No livro "A Voz do Silêncio", de H.P.Blavatsky consta, logo no inicio das regras para o discipulado, o seguinte alerta: "Estas instruções são para os que ignoram os perigos dos Siddhis inferiores". Os Siddhis inferiores são justamente as faculdades psíquicas que abrangem várias formas de energias astral e mental grosseiras veiculadas por meio da kundalini , que no individuo pouco desenvolvido espiritual e psicologicamente se manifesta como força puramente sexual.  Em contrapartida, os Siddhis Superiores só são despertos quando a Vontade Pura tem a Compaixão como expressão dominante. 
A verdade é que em nosso estado vigente, caso fossemos investidos de tais Siddhis seríamos todos magos negros, e por certo já teríamos nos autodestruídos.

Vejamos Jesus: A Ele são atribuídos milagres, o que não nos espanta em face dos seus sentidos físicos serem extensões dos seus sentidos superiores, mas cremos, no entanto, que alguns desses milagres encobrissem ações e gestos mais profundos.  Por exemplo: O milagre de caminhar sobre as águas  foi uma maneira de representar a transcendência das emoções e dos desejos, alhures transformação da água em vinho simbolizasse a transmutação das emoções no vinho da consciência Crística desperta. Por fim, a graça de ter dado "visão aos cegos", pode ser uma referencia a "cegueira espiritual". Ele mesmo disse: "OS HOMENS TEM OLHOS, MAS NÃO ENXERGAM".

Em suma, não devemos "apressar o curso do rio", nem tampouco, cobiçar o que não temos capacidade de sustentar e exercer. O desenho do grande Walt Disney é uma graciosa e deliciosa lição que tem, nas palavras de Jesus a síntese perfeita: "COMO QUERES DAR CONTA DAS GRANDES COISAS SE NÃO CONSEGUES DAR CONTA DAS PEQUENAS?". 




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